Ivonete Aparecida Alves
Este artigo tem o objetivo de dialogar sobre a história do Mocambo “APNS Nzinga Afrobrasil – Arte – Educação – Cultura; um grupo nascido em Presidente Prudente, no Território da Cidadania “Pontal do Paranapanema”, estado de São Paulo a pedido das crianças; que no desejo de produzirem arte, animaram as primeiras ações na confecção peças afro-brasileiras inspirada nas artes africanas. O diálogo foi construído levando em consideração os princípios da Educação Popular discutidos com autores e autoras que nela se inspiram e agiram. Pensamos ser importante tratar um pouco sobre Cultura afro-brasileira em um contexto de escravização continuada, pois é este processo de escravização cultural refletido nas relações sociais que dificulta muito a valorização da cultura afro-brasileira e consequentemente dificulta a sobrevivência de negras e negros, impedindo que exista de fato democracia no mercado de trabalho, na escola e nas oportunidades de renda.
O nascimento do coletivo “Nzinga Afrobrasil – Arte – Educação – Cultura” veio com diversos apelos sociais e também com o imbricamento da nossa história de vida, pautada pelo racismo institucional muito presente (até porque a iconografia africana é propositalmente ausente dos ambientes institucionais). Com uma bolsa da FUNARTE – órgão do Ministério da Cultura pudemos atuar em Paracatu/MG e também em Almeirim no estado amazônico do Pará..
Pensamos ser importante narrar nossa estada no Fórum de Educação Popular – FREPOP; fundamental para conquistarmos um conhecimento que colaborou para a continuidade de uma ação em Almeirim: espaço entre o rio Amazonas e a floresta. Também salientamos a importância do espólio positivo da Bolsa FUNARTE de Circulação Literária para o “Nzinga Afrobrasil”; a união com os APNs – Agentes de Pastoral Negros e Negras e uma série de outras relações que foram sendo construídas nesse processo..
Em contrapartida, a gênese, nascimento, boicotes e inconsistências dentro do COMIR – Conselho Municipal da Igualdade Racial ficam como exemplo dos conflitos ideológicos e da falta de processos formativos continuados: a renovação da educação popular. Enquanto narrava este período de vida, não pude olvidar da leitura de materiais que colaboraram muito para estas reflexões e também para a manutenção do desejo de mudança. Uma série de livros e artigos, com ênfase especial aos autores e autoras estudas das no curso “Introdução aos Estudos Africanos e da Diáspora” realizado em 2012, sob coordenação da Universidade Estadual de Santa Catarina, ajudaram a conhecer um pouco mais das trajetórias de luta do provo negro em sua gênese para sobreviver a tantos “nãos” ofertados pela sociedade brasileira: desde os processos de branqueamento arquitetados pela nação até os atuais genocídios da juventude negra .
Devo agradecer, particularmente à Prof. Vanda Moreira Machado Lima da FCT/UNESP pelo convite para tratar da temática: “Atuação do pedagogo em espaço não-escolar – desafios e possibilidades”; o que desencadeou o desejo e a escrita do material, que deverá ser complementado e implementado para tornar-se um livro, já que nossas experiências em Educação Popular e principalmente com a cultura afro-brasileira e africana têm despertado um interesse crescente das comunidades escolares e da sociedade organizada.
Os princípios da educação popular
Desde o ano de 1990 que venho ouvindo o nome: Educação Popular/Educador Popular e a ligação desses termos com a figura do Prof. Paulo Freire. As primeiras informações vieram de uma colega da FAAC/UNESP de Bauru, onde cursei jornalismo de 1990 até 1993: Iracema Nascimento, hoje coordenadora nacional da ONG “Campanha Nacional Pelo Direito à Educação”.
Era sempre ela quem afirmava que o que nós fazíamos em Garça, atuando na área da Agricultura Orgânica e Educação Ambiental era basicamente Educação Popular: nós estudávamos e visitávamos agricultores, técnicos, escolas e os mais diversos órgãos para convencê-los da importância da produção de comida livre de venenos e respeitando o meio ambiente, preservando a água, as matas, os bichos e principalmente as gentes que viviam com muito pouco de dinheiro, mas com maneiras muito peculiares e ricas de lidar com seu entorno.
Continuei no trabalho e na militância em Garça e região até terminar a faculdade de comunicação e com o diploma de jornalista na mão fui tentar entrar no mercado de trabalho, já enfrentado anos atrás quando terminei o colégio técnico agrícola. O desemprego crônico me empurrou para a área de pesquisa de opinião e depois para a de pesquisa de mercado durante 3 anos em São Paulo. Nesse período as causas de discriminação e racismo ficaram mais palpáveis e pude perceber o quanto fomos impedidas de conhecer profundamente as verdadeiras mazelas e suas razões profundas, nos séculos de construção do que hoje chamamos nação brasileira. Nas esquinas das principais avenidas paulistas, ou nos fundos mais improváveis das favelas paulistanas a gente entrevistava a população, que nem sempre queria responder as nossas perguntas fechadas, mas nos viam como alguém que pudesse fazer a interlocução entre suas necessidades mais prementes e o poder público, nem sempre presente nos lugares onde mais havia necessidade.
Fiz o processo seletivo para educadora ambiental e fui lecionar na FEBEM Imigrantes, já trabalhando com a Profª Nídia Nacib Pontuschka em um livro escrito a muitas mãos, cuja gênese foi na disciplina de Educação Ambiental, coordenada por ela no ano de 1997.
Eu buscava voltar para a universidade e já frequentadora do campus da USP/São Paulo vi muitos cartazes convidando: “Os interessados em cursar a disciplina Educação Ambiental para professores de 1º e 2º graus comparecer tal dia, tal hora na sala tal”. Achei ótima a maneira do convite e quis conhecer a professora e a disciplina. Fiquei por lá todo o tempo em que vivi na capital, primeiro com a Nídia e depois com a Leny Magalhães Mrech, passei pelo curso da Profª Saada Marta Ide e também pela História Oral da Profª Diana Vidal, aí como aluna especial nos cursos de pós-graduação.
Aqui já cabe uma parada para verificar que na educação popular e com as pessoas que optam por trabalhar na educação popular a hierarquia é totalmente quebrada. A gente se abraça, se critica e se ama com a mesma intensidade. Uma titulação de mestre ou de doutor faz uma diferença na hora de conseguir verbas, mas quem a faz não usa NUNCA títulos para diminuir, humilhar ou hierarquizar as relações. Assim, em qualquer lugar em que nos encontramos, nos olhamos e nos tratamos como iguais, nas nossas muitas diferenças.
Este fato também não faz de nós ingênuos diante das maldades do mundo e principalmente das maldades do sistema capitalista que dificultam sobremaneira a sobrevivência da Educação Popular..
Preciso dizer que em 1990 conheci e fiquei encantada com o Prof° Paulo Freire, já de barbas grisalhas e cabelos brancos. Havia ainda fios negros nas suas barbas e bigodes, um sorriso meigo deixando ver os dentes escurecidos pelo fumo e uma enorme disponibilidade, apesar dos compromissos como então secretário da educação do governo Erundina na cidade de São Paulo. Pedi ao técnico da FDE – Fundação de Desenvolvimento da Educação que fizesse uma cópia da palestra do prof. Paulo Freire, das fitas profissionais em disco para as fitas cassetes. Lembro que as fitas de qualidade custaram uma fortuna, mas fiz questão de guardar aquele bem precioso. Durante anos, meu relacionamento intelectual com a obra freireana se deu através das fitas gravadas, que ouvia e ouvia, ao ponto de minha filha crescer ouvindo Paulo Freire falando sobre a “prática educativa”, discurso que ela guardou e que até hoje se lembra.
Depois é que comprei os primeiro livros de Paulo Freire: “Comunicação ou Extensão?”; “Pedagogia do Oprimido”; “Medo e Ousadia” com Ira Shor e “O caminho se faz Caminhando” com o educador popular norte-americano Myles Horton; fundamental para que eu entendesse até a maneira de narrar nossas experiências como educadoras populares.
Nesse livro Paulo Freire e Myles Horton, sentam-se em prosas com horas marcadas e vão relembrando suas experiências, com algumas perguntas que fazem entre si e também que um faz ou outro. Fiquei ainda mais encantada e decidi estudar Paulo Freire de forma mais intensa. Quando prestei o vestibular para Pedagogia na FCT/UNESP de Pres. Prudente em 2003, entrando em 2004 já conhecia boa parte da obra freireana e tinha um acervo de livros dele, maior que o encontrado na biblioteca do campus. À convite da Profª Fátima Rotta ministrei as 6 primeiras aulas na disciplina “EJA na perspectiva de Paulo Freire”, construindo o caminho junto com as educadoras de ouvir Paulo Freire, ver e ler Paulo Freire, assistir Paulo Freire e praticar a obra freireana. Este foi o desafio que nos propusemos e penso que, pelas avaliações do curso, conseguimos atingir. O fato de encontrar outra educadora popular que me incluiu no curso, respeitando a experiência profissional que eu possuía fez toda a diferença para que eu pudesse sobreviver aos academiscismos que perduram mais que o verdadeiro debate de idéias e experiências. Na época trabalhava como jardineira, pois o racismo que vivenciei em Presidente Prudente, foi mais cruel e sectário que o vivenciado em outros locais, ao ponto de impedir que eu entrasse no mercado de trabalho em outra atividade.
O diploma meritocrático (não havia sequer discussões sérias sobre cotas à época em que cursei jornalismo) conquistado com muito sacrifício de nada adiantou diante da imprensa branca, conservadora e que nem deu bolas ao meu diploma; minha cor negra chegava primeiro e não houve competência a ser provada: “aqui não!” ‘Aqui você não entra!” Foi diante dessa realidade cruel que decidimos, Fátima e eu, em longos diálogos que eu precisa de um orientador que me ajudasse a quebrar o bloqueio acadêmico contra a Educação Popular: quais as ferramentas que a própria academia valoriza? Como é que ela escuta os gritos da educação popular? Quando não escuta, o que é que a gente faz?
Uma estratégia é empurrar goela abaixo dos acadêmicos as próprias pessoas do povão que vem junto com a gente, dizendo pra academia que ela precisa mudar, que as coisas que ela faz não serve sempre; mas que tem coisas que ela tem a obrigação de fazer e não faz!
Nesse processo ajudou muito a entrada do governo de Lula e todo um povo sempre calado a canhão e metralhadoras. Teve gente que foi para o governo e ficou empolada, nariz em pé e passando a usar grife de rico, esqueceu suas origens e até boicotou ações do governo; mas teve gente que aprendeu a lidar com as mazelas do poder e também como furar os bloqueios da classe dominante, sempre prontos a tentar nos calar: seja com as armas de guerra, seja com a imprensa cooptada, seja com os doutores empolados nas suas becas de urubu carniceiros de gente viva (com todo respeito que tenho aos urubus: sem eles nossa vida seria uma fedentina só!).
Logo em 2002 começaram as conferências temáticas – algumas como a da Educação já aconteciam, mas eram cooptadas quase na sua totalidade; outras como a da Cultura foram trazendo novas formas de pensar a cultura pelo país. Então eu já lera muito sobre discriminação e racismo e por 2 anos estudei com afinco professoras que escreveram como Eliane Cavalleiro, Marilena Chauí, Maria Beatriz Petronilha (que era conselheira do CNE e redigiu o parecer da lei 10.639-2003 – que tornou obrigatório o ensino de História da África e da Cultura Afro-brasileira do Curriculo Escolar) e muitas outras. Optei por ler as mulheres educadoras, mas percebi que havia muito mais livros escritos por homens sobre o tema da discriminação e racismo: como Antonio Sérgio Guimarães, Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Aimé Césarte, Carlos Moore, Nei Lopes... as mulheres produziram muitos artigos e as revistas de educação e também de sociologia estavam ricas desses artigos. Por este caminho entrei de cabeça, corpo e sentimento na cosmovisão africana. Então descobri que para trabalhar com Educação Popular nesse contexto racista era preciso ir muito além do trabalho prático e mesmo do conhecimento teórico da temática: foi vivendo que conheci o que é o conceito da práxis educativa que tanto Paulo Freire reiterava.
Cultura afro-brasileira em um contexto de escravização continuada
As narrativas mais informais deram lugar a uma narrativa acadêmica, sem perder, no entanto, a importância da práxis educativa construída como educadora. Agora já no processo de aluna do mestrado (a ser iniciado como regular em 2014) aprendi a usar as muitas variáveis da linguagem.
No projeto que apresentei anotei no processo seletivo ao mestrado 2014 me propus a estudar o tema do Gênero e Negritude na Escola Pública: “nos reportando à teoria da educação popular, das multitudes de gênero (PRECIATO, 2004; NICHOLSON, 1999)) e interpretações das autoras contemporâneas de trabalho e luta, além das conquistas atuais do movimento negro, como a Lei 10.639/2003 com seu Parecer, o Estatuto da Igualdade Racial e a Lei das Cotas. A proposta desse trabalho nasceu levando em consideração as poucas referências à temática dentro do curso de Pedagogia da FCT/UNESP, e a pesquisa bibliográfica em periódicos, realizada em 2005/2006 para elaboração dos relatórios de uma bolsa, se estendendo nos anos seguintes com a implementação de um grupo cultural criado para valorizar e fomentar ações da cultura afro-brasileira e africana juntamente com o processo de implementação do Conselho Municipal da Igualdade Racial no município de Presidente Prudente, além da participação em entidades de caráter nacional e dois prêmios do Ministério da Cultura para trabalhar com a temática no Brasil. Durante a realização do levantamento bibliográfico, em 2005, tivemos a oportunidade de constatar a ausência de pesquisas acadêmicas que tivessem trabalhado no imbricamento dos temas: gênero, discriminação racial e educação, mesmo na biblioteca dos outros Campus. Esta ausência pode ser “lida” como resultante da história de discriminação sofrida pelos negros/as brasileiros/as que pela “ideologia do ‘caráter nacional brasileiro’: a nação é formada pela mistura de três raças – índios, negros e brancos – e a sociedade mestiça desconhece o preconceito racial.” (CHAUÍ, 2000, p. 26). Este “desconhecimento”, existiu também nos meios acadêmicos, evitando-se tocar no assunto, mascarando uma situação de opressão pela quase total ausência de pesquisas com a temática.
Na pesquisa sistemática realizada em 3 periódicos - Cadernos de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas, Revista Pro-Posições da UNICAMP e Revista Educação e Pesquisa da FEUSP – foi possível identificar artigos de autoras e autores localizados na interface de gênero, raça e educação, sem que, no entanto, as análises fossem concomitantes e que buscassem aprofundá-las focalizando a mulher negra e educadora em sua subjetividade. Estes artigos estão mais presentes após 1990.
Em 1986 aconteceu o Seminário O Negro e a Educação, organizada pela Fundação Carlos Chagas e pelo Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo, com o apoio financeiro da Fundação Ford, fruto já da abertura política do país e da reorganização dos movimentos sociais.
Com a intensificação de algumas pesquisas, com a publicação de resultados, projetos e programas sobre os temas: negro, educação, discriminação contra a mulher e racismo; foi possível preencher uma lacuna histórica até então ocupada com as figuras estereotipadas apresentadas pelos livros didáticos como salienta Fúlvia Rosemberg [et all] (2003) e com a apresentação crítica dos autores que identificaram os registros do imaginário da mulher negra como objeto sexual que permeiam todo o livro de Marcos Frenette (2000) e o artigo de Laura Cipollone (2003).
Em 2005 foi publicada as Diretrizes Curriculares para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana, através do SEPPIR – Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, – do Ministério da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, diretamente ligado ao Gabinete da Presidência da República. Com o reconhecimento oficial dessas importantes diferenças históricas, o Brasil iniciou a implantação de uma rede de políticas públicas pensadas para diminuir as desigualdades, entre elas as que atingem diretamente as educadoras negras, pois estes documentos sustentam diversas atividades que podem ser contempladas, com financiamento garantido, no cotidiano escolar. Após 2005, houve um aumento considerável de referenciais bibliográficos, inclusive com artigos relacionados aos eventos específicos sobre mulher, educação, negritude e presença marcante da literatura afro-brasileira e africana. O incremento da literatura foi consequência direta da Lei 10.639/2003, pois a SECAD (atual SECADIN) – Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação – MEC/SECAD respondeu por uma série de orientações, seminários de pesquisa e processos licitatórios para aquisição de livros, bonecas negras e étnicas, CDs e DVDs que pudessem subsidiar o trabalho nas escolas públicas.
Estas mudanças históricas foram exigidas pelos movimentos sociais, principalmente entidades que defendem os direitos das mulheres negras, dos indígenas, dos trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra, que organizaram manifestações, encontros e grupos (GARCIA, 2008) para pressionar a criação e/ou o cumprimento de leis, além de inúmeras queixas feitas em delegacias de polícia conforme pesquisa de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães (2004).
Todo este percurso de pesquisa sobre gênero, discriminação e racismo, carece de trabalhos que tenham promovido a escuta (FINK, 1998), com qualidade das mulheres negras que atuam dentro da escola, com o foco em sua subjetividade e construção de identidade onde o conceito de negritude possa ser assumido e vivenciado com menos traumas (CÉSAIRE & MOORE, 1987).
O nascimento do coletivo “Nzinga Afrobrasil – Arte – Educação – Cultura”
Ainda durante a graduação na disciplina de “História da África e Culturas Afro-brasileiras e Africanas e Racismo no Brasil”, coordenada pela Profª Fátima Salum, em 2007 fomos para a escola João Sebastião Lisboa, na sala da 4ª série, em Pres. Prudente realizar uma ação na Semana da Consciência Negra, em novembro. Quis experimentar uma coisa diferente e confeccionei 5 bonequinhas inspiradas nas originais africanas. Foi um deleite! As crianças adoraram as bonecas e nas avaliações foi o que mais apareceu em desenhos, elogios e escritos. A boneca Ntwana, com uma estética muito diferenciada, parecendo uma cabaninha foi uma enorme novidade!
Ao mesmo tempo eu fazia minhas máscaras ritualísticas, com base em um folheto do Museu Afrobrasil tentando materializar a cultura africana. De alguma maneira o chamamento das crianças desejando aprender a fazer as bonecas, as máscaras e seus pedidos insistentes me asseguravam que havia um caminho para trabalhar com discriminação e racismo que cruzavam com os percursos de várias educadoras populares. Minha habilidade com o artesanato, com a vontade de expressar com arte dores antigas e novas repercutia com muita intensidade nas crianças da comunidade e não nas pessoas adultas, que por tanto tempo tentei trazer para a militância e também para as possibilidades revolucionárias de nosso tempo.
Em fevereiro de 2009, ainda desempregada e vivendo da venda de objetos usados e novos; decidi atender o pedido das minhas vizinhas pequenas. Ao final das tardes, na sombra do nosso abacateiro eu me sentava em um toco velho e corcomido pelos cupins e modelava faces de velhos africanos, de máscaras ritualísticas dos meus antepassados, de peças contemporâneas, quase todas saqueadas (de uma forma ou de outra) dos muitos países do continente africano: Kwele, Ndebeles, Zulus, Igbo, Yorubás, Kota e muitas outras etnias africanas vinham para as cópias em papel e depois iam se transformando à partir da massa disforme do papel-machê batido em um velho liquidificador, todo colado com fita grepe para não entrar água no motor.
Atendido o pedido de 4 pequenas crianças, depois de 3 semanas eram 27 e a calçada ficou pequena para tanta criança. Trabalhamos muito e em maio, inauguramos uma exposição com direito a comida, bebida e fotos de artistas em um painel no muro. As famílias vieram conferir o que tanto a molecada fazia debaixo do pé de abacate e que tal interesse era aquele que as fez esquecer das pipas, das bonecas e até do futebol na rua. A exposição ficou pelos muros 40 dias e quando ameaçava chuva era uma correria só para salvar os cartazes. Teve uma vez que as máscaras molharam e uma Gueledé ficou encharcada e quase derreteu. Foram mais 2 meses para recuperar a peça.
Diante do sucesso do trabalho fiquei pensando em como continuar. Continuava sem grana nem para pagar as minhas contas e as crianças aumentando. A exposição custou mais de 260 reais e pra gente era uma fortuna! Tivemos algumas doações de amigos, mas o grosso vinha do meu pequeno orçamento com vendas de roupas usadas. Usávamos tinta doada, lixas encontradas nas caçambas de lixo, material da COOPERLIX e da beirada do estradão: uma continuidade do lixão da zona leste.
Minha filha desenhou uma menina com trancinhas e o logotipo ficou com a nossa cara. Em maio de 2009 a Fundação Cultural Palmares lançou o “Edital de Idéias para 20 de novembro”, em comemoração ao Dia da Consciência Negra e com o incentivo de amigos e a colaboração direta do Antônio Sobreira respondi ao edital, propondo 6 ações no bairro: Sacolas Culturais , Exposição na escola; Exposição no CRAS Cambuci; Curso de Máscaras Étnicas; Curso de Bonecas Étnicas e a Produção da Estátua de Zumbi dos Palmares.
A proposta ficou muito bem redigida e com uma farta documentação que provou nossa capacidade de executá-la. Entre os 360 inscritos tivemos nota máxima e ficamos com um dos prêmios da região sudeste do Brasil. Foi uma enorme festa! Pensamos que 20 mil reais era tanta grana que daria para revolucionar a cidade e quiçá o país! Ao saber do prêmio uma demanda reprimida na cidade apareceu e recebemos muitos convites para novas exposições e mais trabalho voluntário. Contratamos 13 bolsistas, com a intencionalidade e um compromisso firmado para dar continuidade no trabalho, tentando novos editais e também compondo a diretoria do Nzinga para oficializar uma associação. Alguns bolsistas, sabíamos da dificuldade em continuar, pois eram universitários que retornariam para suas cidades de origem, outros foram contratados para um trabalho pontual: como a digitalização do logotipo do coletivo e também dos folderes e materiais de divulgação.
Feita a entrega dos documentos que comprovaram a execução da proposta do edital, a entrega dos certificados dos cursos e festas na entrega, continuaram as demandas. Fomos então fazer a escrita das despesas reais e ficou uma dívida de R$2.760,00. Fiz um empréstimo no banco, avaliado pelo profº César Leal e a Lia – sua esposa, pois eu não tinha como provar renda e nem sabia como iria pagar a conta. Foram 3 anos para quitar a dívida e uma demanda, agora aumentada de 36 para 120 crianças. Como iria por 120 crianças debaixo do abacateiro? Como conciliar as oficinas e a vida doméstica toda preenchida com a demanda daquelas crianças que aprenderam a amar a arte? Eu e minha filha ficamos em choque, cansadas e tendo que atender as crianças no portão, ora pedindo um curso, ora querendo fazer outra boneca ou encontrar a que ficara inacabada durante as oficinas.
Sofremos muito sem poder atender a demanda que nós mesmas criamos, mas a decisão foi paralisar quase todas as atividades, menos as sacolas culturais que iriam pra dentro das casas das crianças. Fizemos mais 20 sacolas com a grana do prêmio e já tínhamos 10 sacolas financiadas com a ajuda de muitas amigas e também com um acervo pessoal, construído ao longo de anos de trabalho e pesquisa. As 30 sacolas conseguiam atender em parte, a continuidade do trabalho; mas a lembrança dos encontros aos finais das tardes e aos sábados, domingos e feriados não saía dos pedidos das crianças. Então era preciso alugar um espaço: uma casa, um barracão para caber nosso acervo e separar em parte, as ações do Nzinga Afrobrasil e as atividades domésticas. Nossa pequena casa, com um único banheiro ficava uma zona depois de uma oficina e mesmo contando com a boa vontade das crianças, levava alguns dias para encontrar tudo que era preciso para o cotidiano.
Conversei com meu padrinho e pedi que ele pagasse o aluguel de um espaço por 6 meses até que pudéssemos reformar o local: uma pequena casa toda despedaçada, com pilhas e pilhas de entulho, portas quebradas, sem tanque, com o sistema de água em frangalhos e com a energia em curto em alguns locais. O senhorzinho que lá morara, preso no alcoolismo, tinha deixado tudo minguar e piorou muito um espaço já decadente. Com os rapazes da liberdade assistida da Secretaria da Administração Penitenciária fomos reformando o espaço, aos poucos e de acordo com as nossas forças. Ganhamos tinta velha, massa corrida já endurecida e continuamos garimpando nas caçambas de lixo. Aprendi a ficar de olho nos editais e em 2010 respondi um edital de literatura da FUNARTE – Fundação Nacional das Artes do Ministério da Cultura. As Sacolas Culturais Afro-brasileiras foi nossa proposta vencedora e agora era para trabalhar por 6 meses em 3 Territórios da Cidadania . Fiz um planejamento detalhado das despesas, com o firme propósito de não ficar com dívidas e ainda poder deixar alguma ação continuada, financiada com o recurso desse edital, mesmo que tivesse que abrir mão do meu pro-labore.
O resultado do edital saiu e já estava casada, com um pouco menos de tempo para estudar e cuidar das propostas do Nzinga, porém com o apoio de mais uma pessoa para ajudar nos momentos em que ficava com as crianças. Ainda não tínhamos internet em casa e era preciso conciliar as informações com os momentos de ir para as lan-houses verificar os correios importantes. Quase perdi o prazo para enviar a documentação, pois já tinha desistido de ir ver e-mail todo dia. Uma das medidas programadas para fazer era mesmo instalar uma net em casa. Depois do envio da documentação começa um tempo de monitorar se o dinheiro foi depositado na conta. É uma angústia; pois depende disso o planejamento das atividades seguintes. O recurso chegou ainda em dezembro de 2010, já com as escolas públicas em férias e muitas instituições planejando seus encontros de final de ano. Meus contatos em Paracatu/MG e Almeirim/Pa também já estavam em ritmo de férias e então planejamos ir para Minas em janeiro, já que nunca tinha estado lá. Em Almeirim eu já havia estado e conhecia um pouco do funcionamento da cidade e da educação na região, pois já estivera coordenando uma formação através do PAS/UNESP , em 2006.
Fórum de Educação Popular – FREPOP
Desde o pedido inicial das crianças, nosso trabalho com as máscaras e bonecas inspiradas em originais africanas chamou a atenção e acabou delineando nossas ações com cultura africana e afro-brasileira. Mas houve também nossa participação no Fórum de Educação Popular em Lins/SP, desde o ano de 2007. Para ir ao primeiro FREPOP foi preciso me desvincular de um estágio, pois a gerente regional quis dificultar minha estada no Fórum, pois iria como convidada para participar de uma mesa para discutir Paulo Freire. Intenso, com uma programação variada e de fato um evento foi com uma participação popular genuína, o FREPOP até 2012 foi construído com uma participação efetiva do Por. Antonio Folquito Verona. Educadores e educadoras populares do Brasil e do mundo com um encontro anual, nascido à partir das discussões do Fórum Social Mundial. Retornei aliviada para Prudente, perfeitamente ciente das consequências de perder, de novo, uma renda fixa mensal. No entanto, os planos para trabalhar com educação popular foi renovado com a presença de trabalhadoras rurais e depoimentos provocantes da luta no campo, por direitos, que dizem, foram já conquistados. Outros trazidos do Senegal por Maussa Diop, da Índia e também dos Estados Unidos. Foi nessa ocasião que descobri o tamanho da influência da obra freireana nos trabalhos de educação popular pelo mundo afora.
Uma experiência marcante nesse FREPOP de 2007 foi o Teatro do Oprimido do município de Santo André: jovens atuando como mestres em palcos improvisados e nos espaços do Fórum nos momentos mais surpreendentes. O sentimento de pertencimento a um grupo, com plena consciência de seu papel no mundo, aflorou com toda intensidade nesse FREPOP. No ano seguinte levei minha filha, apaixonada por teatro para o FREPOP e com o grupo de Santo André ela descobriu que poderia coordenar oficinas de Teatro do Oprimido em Presidente Prudente.
Com a Bolsa FUNARTE de Circulação Literária, em 2011 foi possível montar uma oficina de 6 meses em Cambuci, para crianças do bairro e depois outra em Paracatu/MG para jovens atores locais. Também levei para o FREPOP parte do acervo de nossas peças inspiradas em originais africanas e com a presença de 3 africanos pudemos confirmar o sentimento da diáspora e da cultura africana como sendo parentes de sangue e pertencimento. Moussa Diop, mulçumano africano passeou pela exposição e durante mais de uma hora explicou suas impressões sobre nossa irmandade. Foi a glória: ter o trabalho reconhecido por outro educador popular e com toda a experiência dos mercados e museus do Senegal.
O FREPOP entrou nas nossas programações de julho e passou a ser uma referência anual para troca de experiências e novos aprendizados. Em 2008 veio para Prudente o Prof. Liam Kane da Universidade de Glasgow, na Escócia e desde então temos tentando um intercâmbio para trazer ao Nzinga um falante de inglês para conviver com as crianças, trocando experiências no ensino e aprendizado de línguas. Também é no FREPOP que a gente consegue encontrar o povo do MOPS – Movimento Popular em Saúde, com práticas integrativas em Saúde, massoterapia, benzedeiras, parteiras e várias outras práticas populares agora integradas ao SUS – Sistema Único de Saúde – que possui também uma Política Nacional de Saúde da População Negra (em 2013 houve uma divulgação um pouco melhor dessa temática em Prudente com a vinda de Anna Volochko , médica pesquisadora que trabalha com a Saúde da Mulheres Negra, com foco no período da gravidez e parto, onde colheu dados sobre o índice de morte dessas mulheres, muito superior à de outras mulheres brancas nas mesmas condições sociais.
Dentro do FREPOP também começaram em 2013 a participação mais efetiva do grupo Xirê, com yás e babalorixás que trabalham com saúde dentro dos terreiros de matriz africana. Ao mesmo tempo, acontecia lançamento de livros, manifestações culturais, exposições e o FREPOPINHO (em 2013 foram atendidas mais de 150 crianças por dia) com a participação das crianças, seguindo a tônica de todo movimento popular, que é atender crianças e adolescentes; sem o que a participação das pessoas do povo fica praticamente impossibilitada, pois com que ficam as crianças enquanto a família adulta milita?
Nzinga Afrobrasil em Paracatu/MG
Cidade histórica, a cerca de 240 km de Brasília, Paracatu tem na mineração uma fonte de conflitos. O ar da cidade é pesado e contaminado. A gente preta do lugar está nas periferias, quilombos rurais e urbanos e há um racismo tão cruel, que mesmo negros e pardos não se reconhecem como tal: a horrorosa palavra “moreninha” é muito usada para não “ofender”.
Mas há riquezas mil, inclusive nas histórias da arte, fazeres e práticas registradas em material do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O projeto foi organizado em 3 CDRons: Culinária; Celebrações e Ofícios e Modos de Fazer. Uma das técnicas preservadas que mais me chamou a atenção foi as forrações das casas feitas em bambu cortado e trançado à modo de cestos; de uma única vez. O bambu tem que ser cortado no tamanho exato do cumprimento ou largura do teto a ser forrado. São lindos trançados e uma forração completamente ecológica. Ao menos um Museu em Paracatu preserva a forração em bambu.
Outra descoberta sensacional foi o uso das toás: uma pedra mole, presente nos leitos dos rios da região que oferece tons magníficos para pintura. Ao ouvir a palavra e seu uso quis muito conhecer os locais onde poderia encontrar a pedra e com a ajuda de um remanescente da nobreza portuguesa adentramos um riacho para localizar e coletar as preciosas pedras moles. De 2 riachos pude já produzir mais de 30 tons, que usei para pintar máscaras étnicas. Nenhum artista da região utiliza mais esta riqueza ancestral em suas pinturas e me comprometi em elaborar peças e documentar os usos possíveis das toas, pois este registro o IPHAN ainda não realizou.
Seu Anísio entalhando em madeira peças da tradição religiosa e também o garimpo, o garimpeiro, os animais do lugar foi minha maior admiração. Com ferramentas simples ele busca nas formas da madeira as imagens mais caras ao seu pensamento: São Benedito, São Francisco, uma coruja em um pequeno galho de goiabeira, um garimpo com a enxada e a bateia são colhidas com arte e maestria de profundos conhecedores de seu fazer; tudo coroado com uma simplicidade e um olhar acolhedor de quem está em paz com o mundo.
Foi nessa ambiente de conflitos que a Lisie coordenou a oficina de Teatro do Oprimido, que em uma semana as famílias dos adolescente puderam conferir uma esquete montada pelo grupo, falando dos preconceitos que sofre e da resistência que conseguem realizar.
Também deixamos na cidade 10 sacolas culturais para serem compartilhadas entre as gentes da cidade e da zona rural, no Quilombo S. Domingos.
Almeirim: espaço entre o rio Amazonas e a floresta
Estive lá pela primeira vez em 2006 pelo PAS/ Alfasol – Programa de Alfabetização Solidária: um convênio entre a UNESP e a ONG. Prometi retornar e então ao responder o edital da FUNARTE inclui Almeirim como uma das cidades para trabalhar. Chamei o povo de lá de povo Acari.
O acari é um peixe típico do Rio Amazonas que se decompõe se ficar fora d’água. É trazido para a margem do rio em gaiolas ainda vivo, e recebe uma paulada para ficar atordoado. O ritual de dar paulada em peixe pulando é fato comum nas manhãs coloridas e cheias de barcos que chegam e que saem. A vida do município passa todos os dias pelas margens do rio.
Paulo Freire recomendava que ao iniciar um trabalho com um grupo de pessoas “não se deve partir do conceito para entender a realidade, mas sim partir da realidade para, através do conceito, compreendê-la. Mas nesse processo de realidade-conceito-realidade, conforme defende Kosik, o conceito deve ser considerado como mediação para compreender a realidade. Este conceito não pode ser considerado como absoluto não transformável. In.: ”Por uma Pedagogia da Pergunta”; Paulo Freire e Antônio Faundez, p.63, 1985.
Foram 2 semanas preparando especificamente materiais para levar nesse encontro formativo: toda a equipe do PEJA em Prudente se mobilizou e ajudou na elaboração dos materiais: foram jogos, exercícios, revistas, etc.
Poderíamos ter começado tentando descobrir em suas falas, as palavras geradoras do grupo e de cada uma das educadoras e dos educadores. Optamos pela sugestão do Profº Misael e começamos pela pintura. A proposta foi para desenhassem o importante de sua terra.
Desenharam o rio Amazonas, os peixes, as árvores frutíferas, com destaque para o açaí (com seus cachos verdes e maduros , pendurados na palmeira). O ouriço que protege a castanha-do-pará e o buriti... As casas das pessoas em retrato simples e inocente, porém repleto de significados. Desenharam o céu, que se perde lá longe em contato com o rio “que é um mar”.
“Oi, meu nome é Leide, tenho 24 anos, sou casada e estou grávida de 5 meses, e moro na comunidade Nova Arumanduba, interior de Almeirim. Na minha comunidade é encontrada vários frutos: açaí, a castanha do Pará, o cupu-açu, a laranja e muitos outros...”
“Eu e meu marido trabalhamos com a castanha para nos alimentar, a safra começa no mês de janeiro e termina no mês de abril. Durante esse período nós vamos para a mata e ficamos dia e noite no barraco. Ele coleta os ouriços e no final do mês de março começa a quebra e depois coloca em sacas para levar para Arumanduba de canoa.”
Em 2011 reencontrei Leide, lá em Almeirim, agora com um lindo garoto e ainda lecionando na sua terra, já com o curso de Pedagogia em andamento. Falei sobre as Sacolas Culturais que ficariam na cidade e de minha proposta de retornar toda vez que fosse possível.
Então, ao pensar e fazer um apanhado das nossas atividades em Educação Popular é possível perceber os traçados em aspiral, os encontros e reencontros que possibilitam uma troca muito frutífera das ações dos mais diversos grupos que atuam e que tem conseguido, com essas teias de relações mudar, para melhor, suas realidades.
O espólio positivo da Bolsa FUNARTE de Ciculação Literária para o Nzinga Afrobrasil
Ao finalizar o intenso processo de trabalho com esta bolsa, foi possível adquirir uma TV de 42 polegadas e um home-theater para realizar nossas sessões de cinema semanais e também os cursos de formação. Já tínhamos tentado realizar sessões de filmes, primeiro com a colaboração do CEMOSE- Grupo da FCT/UNESP, que gravou 50 filmes para nós. Como eram cópias ficamos com receio de publicizar para as crianças criando uma contra-cultura que nesse momento não nos parecia politicamente aceitável.
Então, com a aquisição de materiais para compor as sacolas culturais, nós compramos muita literatura brasileira, afro-brasileira e africana para implementar nosso acervo. Boa parte dos livros, CDs e DVDs adquiridos foram para Almeirim e Paracatu, mas foi possível deixar mais de 200 livros no nosso acervo, além do equipamento para as sessões de cinema.
No início eu escolhia os filmes, ou aceitava a indicação de algum adulto; em 2013 começamos a deixar que as crianças escolham o filme. Percebemos que o interesse ficou muito mais intenso.
As primeiras sessões de cinema foram uma tortura! Havia pipoca voando pra todo lado e ao final ficávamos com um espaço todo bagunçado e com uma enorme quantidade de copos e louça para lavar. A maioria das crianças fugia pouco antes da sessão acabar pra não ter que ajudar a arrumar o espaço. Houve dias em que o filme teve que ser parado para que eu pudesse dar uma bronca bem dada na turma. Pensei em desistir e não realizar mais as sessões. Toda vez que pensava seriamente em desistir havia uma demanda nova que colaborava com a continuidade do trabalho. Fosse uma visita, ou a turma de Educação Popular da UNESP e Doma Maria do Rosário, uma voluntária maravilhosa que nos ajudou a insistir no trabalho.
Depois de findado o dinheiro da FUNARTE, tivemos de batalhar para conseguir pagar o aluguel do espaço, comprar pipocas, refrigerante e matérias de consumo para nosso trabalho e cadê o dinheiro? Nosso orçamento pessoal entrou em falência, pois não chegava para manter nossa casa e o coletivo funcionando. Durante uns 6 meses produzimos chaveirinhos com bonequinhas pretas, mas era fazer uns 10 pra um prestar. As carinhas ficavam manchadas com as tintas em relevo, os corpinhos tortos e pernas e braços cada um de um tamanho.
Então dona Maria começou a costurar as bonequinhas primorosamente. Eram lindas roupinhas com rendas e sempre um cabelinho todo arrumado. Elas vinham quase prontas, mas ela não tinha coragem de pintar o rosto, com medo de estragar. Eu passei a pintar o rostinho com tinta relevo e cada criança que quisesse fazer sua boneca precisa passar pelo curso, aos domingos pela manhã. As bonequinhas se destacaram nas vendas e em breve pudemos pagar o aluguel com seu comércio.
Um garoto de um bairro da zona leste de Presidente Prudente foi convidado pelas crianças para vir ensinar peças confeccionadas com miçangas, compradas com os recursos do Ministério da Cultura (algumas em 2009, mais em 2011). Então os jacarezinhos, cruzes e libélulas coloridas foram compor nossa mala de vendas. Pequenas etiquetas cortadas em papel-paraná recebiam nosso carimbo e as pessoas começaram a encomendar peças novas. Compramos revistas que ensinam a confeccionar peças em miçanga e algumas crianças se destacam na confecção de objetos.
A união com os APNs – Agentes de Pastoral Negros e Negras
Com o processo de implementação do Nzinga recebemos muitos convites para participar das Conferências Municipais, inclusive na organização e escrita dos textos de apoio. No CONSEA – Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional fomos participar da organização tanto da Conferência Municipal como da Regional, processo também incluído na agenda do CODETER – o Colegiado da Terra do Pontal do Paranapanema.
Na Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, em Salvador, no Mês de novembro de 2011, conhecemos Nuno Coelho – coordenador Nacional dos APNs – e começamos a pensar numa visita dele em Pres. Prudente para alavancar algumas ações do movimento negro na cidade e região.
Já com o COMIR – Conselho Municipal da Igualdade Racial na sua primeira gestão, nós tínhamos a ilusão de que haveria possibilidade de implementar ações que foram ficando sem força de trabalho, devido à demandas que criamos sem possibilidade de dar prosseguimento por falta de tempo e recursos humanos, principalmente. Nuno Coelho esteve na cidade, foi acolhido de forma muito positiva pela imprensa local, pela secretaria de Assistência social e muito criticado (sem uma base real) por alguns componentes do COMIR. Convidado o Nzinga para ser uma entidade-pólo regional nos juntamos com os APNs, no início de 2012, passando a adotar o título de Mocambo APNs “Nzinga Afrobrasil – Arte – Educação – Cultura”. Fizemos um cadastro para malungas e malungos que quisessem fazer a filiação, mas não conseguimos estabelecer a cobrança de mensalidades de forma sistemática por não possuir, ainda o CNPJ. De qualquer maneira, alguns filiados e outras pessoas colaboram, de forma sistemática, com doações para o Mocambo. Fazemos uma avaliação anual de nossas contas e sempre há muito mais despesas que renda, o que conscientiza o grupo da necessidade de novas ações para a manutenção e implementação do trabalho.
Programamos realizar 4 festas para crianças por ano: maio, outubro, novembro e dezembro, mas nem sempre conseguimos cumprir nosso cronograma, pois as sessões de cinema e o trabalho manual consome muita energia para o planejamento e pagamento das despesas. Todo ano o grupo de FCT/UNESP busca o projeto para aprender um pouco sobre educação popular e em 2012 e 2013 pedimos a organização de uma festa para a garotada.
Também começamos a levar as crianças para ver espetáculos e fazer oficinas fora do Mocambo, principalmente eventos promovidos pelo SESC Thermas de Pres. Prudente. Em maio de 2013 tivemos uma ida para ver uma espetáculo de Circo e Teatro com um grupo maior de crianças e foi um deleite.
O COMIR – gênese, nascimento, boicotes e inconsistências
O convite para ajudar na organização do Conselho Municipal da Igualdade Racial partiu da CUT – Central Única dos Trabalhadores; que possui institucionalmente o Coletivo Anti-Racismo, com algumas ações marcantes no passado, sem, no entanto, ter conseguido dar continuidade a essas ações. Quando ganhamos o prêmio da Fundação Cultural Palmares, a CUT foi uma das entidades que nos convidou para conversas e organizações de eventos, incluindo a composição do COMIR. Foram muitas reuniões e discussões acaloradas nesse processo de aprender como institucionalizar um trabalho, que pretendia ser coletivo.
Desde 2009 até 2011 quando o COMIR foi institucionalizado houve um enorme trabalho de mobilização, que assumimos com o uso de muita energia, negociações difícies e um trabalho absurdo com a burocracia oficial. Mas esta parte era esperada. O que eu não esperava era uma oposição tacanha, afrontosa e até desrespeitosa dos companheiros do Conselho da própria sociedade civil, ao ponto de me chamarem para uma sabatina de crítica, a exemplo do que ocorria na ditadura militar. Cheguei a pensar que se essas pessoas tivessem o poder em época ditatorial fariam pior do que fizeram os militares. Nada do feito ou realizado parecia fazer aplacar a ira contra meu trabalho. Levar a gestão até seu final foi um suplício. Mesmo quando desisti de concorrer à segunda gestão a perseguição continuou.
As demandas anotadas e solicitadas nas reuniões para formação do COMIR foram registradas e em parte cumpridas, como demandar do poder público algumas políticas públicas mais efetivas, divulgar a cultura afro-brasileira e incentivar eventos em datas importantes para o movimento negro: maio e novembro principalmente. Resgatamos os materiais de pesquisa como uma dissertação intitulada “O negro” apresentada à Instituição Toledo de Ensino” na Faculdade de Serviço Social em 1991, recortes de jornais, entrevistas, fotos do museu e depoimentos de várias pessoas que fizeram ou intentaram fazer alguma ação na cidade, incluindo os APNs históricos.
Enquanto isso, o acervo do Mocambo Nzinga aumentava com a nossa participação em vários eventos no território nacional, incluindo eventos internacionais. Ficava patente a má vontade em aprender sobre o tema, nos convites sempre olvidados promovidos pelo SESC Thermas, UNOESTE e pelo próprio COMIR: de repente tudo o que tinha sido solicitado virou pó. Que tipo de desejo perverso existia então à época da solicitação?
Em Presidente Prudente esteve o Prof´. Hélio Santos, expoente na luta anti-racista no Brasil e do COMIR só eu. Em Prudente a Drª Dulce Maria Senna, professora de Medicina da USP tratando de “Vulnerabilidade e Equidade em Saúde da População Negra” no dia 19 de março de 2013 e do COMIR, eu e dona Ilca. O Mocambo Nzinga financiou 6 sessões de cinema com nosso acervo em novembro de 2013, para marcar o mês da Consciência Negra, evento tão solicitado pelos conselheiros em anos anteriores e nas sessões não havia o povo do COMIR lá.
Mas o fato mais marcante foi a Conferência Municipal da Igualdade Racial : muito trabalhosa para organizar, divulgar e viabilizar sua construção, depois providenciar o envio do relatório final, ajustando as propostas ao que solicitava o relatório da Conferência. Votada para a Estadual fomos, com as malas repletas de produtos para comercializar, pois as contas venciam todo mês, independente do quanto militávamos!
Foram terríveis as brigas na Conferência Estadual. As discussões e os conflitos irremediáveis pareciam ser sucessivos, sem que fosse possível avançar nas discussões. Desde o primeiro momento da conferência estadual o que importava era a votação para representantes em Brasília. No nosso grupo prudentino não havia dúvida sobre a importância do trabalho realizado no âmbito regional do Mocambo Nzinga e que dentro do grupo éramos quem tinha, de fato, realizado um trabalho como tema da igualdade racial, com qualidade e seriedade; porém o grupo se juntou e boicotou a nossa participação com razões tacanhas, o que ficou patente uma incompetência até para avançar nas suas próprias reivindicações.
Apesar da enorme decepção, foi tranquilo absorver a pancada, pois já estava com uma agenda repleta para outubro e novembro de 2013: um evento sobre educação popular e cultura em Franca, como debatedora, uma palestra em Primavera e um evento internacional na FCT/UNESP de Presidente Prudente, além das nossas atividades corriqueiras, que incluem formações.
Dessa maneira, parece que o Mocambo Nzinga terá que continuar arcando com as ausências regionais no âmbito da cultura popular e afro-brasileira, recebendo visitas e promovendo eventos que tratem do tema com consistência e uma agenda de continuidade. Toda semana temos recebido visitas de estudantes das escolas públicas, compartilhando materais de pesquisa e falando sobre arte e cultura afro-brasileira e africana.
Processos formativos continuados: a renovação da educação popular
O Movimento Negro ainda não conseguiu incorporar os princípios básicos da Educação Popular que são: a inclusão de todas as faixas etáreas em suas atividades; a formação continuada de novas lideranças; o respeito aos antepassados e aos que conseguiram avançar (ou não) em determinadas temáticas e o planejamento minucioso da manutenção das atividades de base. A falta de recursos financeiros para manter atividades de base mina ideiais, por mais calorosos e autênticos que sejam.
Mas o ponto crucial é a ausência de estudo sistemático, com e sem a ajuda acadêmica. Nossos seminários, às vezes refletem desejos da base, mas na maioria das vezes, refletem desejos pessoais ou uso político do povo negro para cooptação de votos ou cargos.
Evidentemente, que em pouco tempo os aventureiros desistem: o tema é tão complexo; o trabalho tão difícil que exige sempre doses extras de resiliência para realizar as mínimas atividades. A luta anti-racista não é um tópico da educação popular: são temáticas que se imbricam, ora com profundas similaridades, ora com oposições, em poucos tópicos. A luta anti-racista tem sua gênese a história dos povos pretos no mundo e nenhum povo foi oficialmente declarado escravizado, generalizadamente como fomos. Esta é uma diferença fundamental que pauta toda a luta dentro do movimento negro. Decorre daí que as formações continuadas, principalmente identificando novas lideranças, sejam de fundamental importância quando pensamos em educação popular. Apesar da falácia dentro e fora da academia, na hora de avaliar os processos, as bolsas mais graúdas, as dotações de médio e longo prazo a educação popular vira discurso vencido. Paulo Freire, o ilustre brasileiro desconhecido no Brasil (se fosse conhecido a educação popular seria mais respeitada e incluída, de fato, nas práxis locais) vem em pomposas citações, sem que seja experenciada uma ação de educação popular sequer.
Os locais onde se discute Educação Popular tem uma gênese respeitosa, desde sua concepção conceitual, até seu ponto ápice, que será somente uma etapa de um longo processo construtivo que leva em consideração a participação popular, as votações, as continuidades e descontinuidades e também as diferentes maneiras de organização popular. A rede de educadores populares tem o princípio da rede como vivência cotidiana e as práticas integrativas como norma de ação. Sem este movimento formativo continuado, com uma longa história de refazimentos, a educação popular fica no discurso e não avança.
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UNESCO/MEC. História Geral da África II – África antiga. Editor do volume: Gamal Moktar, Brasília: UNESCO, 2010, 2ª edição.
VOLOCHKO, Anna. Mortalidade materna: determinantes sociopolíticos. In.: KALCKMANN, Suzana; BATISTA, Luís Eduardo; CASTRO, Claúdia Medeiros de. (orgs.) Nascer com equidade: humanização do parto e do nascimento: questões raciais/cor e de gênero. Série “Temas em Saúde Coletiva 11”. Instituto de Saúde: São Paulo, 2010. (Acompanha um DVD: Questões étnico-raciais, parto e nascimento.)
WENWTZ, Ileana. Das escolhas que fiz: implicações etnográficas na pesquisa com crianças. In.: Revista Pro-Posições. Campinas: v. 22, nº 2 (650, p. 133-149, maio/ago 2011.
Filmes:
A cor de um crime. Direção de Joe Roth. Produção de Scott Rudin. Columbia Pictures, EUA, 2006. 112 minutos, cor, dublado e legendado, formato widescreen.
Abdias Nascimento – momentos políticos. Roteiro e edição de Elisa Larkin Nascimento e Afonnso Drumond. Gravadora Persona Produções. Cor, Brasil, 2006, 31 minutos, cor, formato?.
Besouro – da capoeira, nasce um herói. Direção de João Daniel Tikhomiroff. Roteiro de Patrícia Andrade, João Daniel Tikhomiroff & Bráulio Tavares. Formato da tela: widescreen anamórfico, cor, 2009, 95 minutos.
Chico Rei. Direção e roteiro de Walter Lima Jr. Brasil, formato da tela: fullscreen, cor, 1985, 115 minutos.
O contador de histórias. Baseado na história de Roberto Carlos Ramos. Direção de Luiz Villaça. Produção de Ramalho Felipes Nia filmes & Warner Bros Pictures. Brasil, Formato da tela widescreen anamórfico, cor, 2009, 105 minutos.
O povo brasileiro. Da obra de Darcy Ribeiro. Idealização e direção de Isa Grinspum Ferraz. Produção de Zita Carvalhosa. Brasil, Formato da tela fullscreen, cor, 2000, 260 minutos.
Orí – textos e narração de Beatriz Nascimento. Direção de Raquel Gerber. Produção executiva de Ignácio Gerber, Angra Filmes & FCB. Brasil, formato da tela Letter Box, cor, 2008, 91 minutos.
Quanto vale ou é por quilo? Realização: Sérgio Bianchi. Roteiro: Sérgio Bianchi; Eduardo Benaim. Versátil vídeos, Brasil, 2005. 104 minutos, cor, formato widescreen
Ray. Direção de Taylor Hackford. Produção: Howard Baldwin, Karen Elise Baldwin, Stuart Benjamin, Paul Pompian e Taylor Hackford. Inspirado na história de Ray Charles. Crusader entertainment, EUA, Legendas em inglês e português. Formato da tela widescreen anamórfico, cor 2004, 152 minutos.
Tupac Resurrection. Direção de Lauren Lazin. Produção de MTV Films & amaru Entertaiment, Paramount. EUA, Legendas em português, Cor, 2003, 112 minuto. Formato da tela (?). (Documentário).
CD com encarte:
Abigail Moura. Orquestra Afro-brasileira: Projeto integrado à exposição Negras Memórias, Memórias de Negros. Projeto de Emanoel Araújo. Produção Executiva e pesquisa biográfica de Grégoire Villanova. São Paulo, 2003.
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